Não é uma questão de gosto, é uma questão de desenvolvimento

Uma tourada é um espetáculo de divertimento antigo (remonta ao século XII) em que certas pessoas (os toureiros) montando cavalos e deslocando-se a pé, espetam ferros no dorso dos touros, os pegam pelos chifres e pelo rabo e os matam. Isto tudo demoradamente e com detalhes requintados de crueldade. Ainda, durante estes atos, aos quais se dá o nome de “lide” e “pega” e aos quais assistem pessoas em regozijo e delírio (os aficionados) é desferida violência e morte contra seres sencientes (que sentem, tendo um sistema nervoso complexo), indefesos e inocentes. As touradas são inequívocos atos de barbaridade totalmente injustificada nos padrões humanistas atuais.

Desde tempos muito antigos que temos vindo, nós, indivíduos da espécie humana, a habitar este planeta praticando atos inerentes à nossa necessidade de sobrevivência.  Através deles temos vindo a desenvolver-nos, aprimorando-nos, transformando-nos enquanto seres pensantes, racionais, trabalhando incessantemente, geração após geração, em estratégias diferentes, experiências novas, buscando alcançar e aumentar as vias infinitas repletas de possibilidades que garantam a continuação desse aperfeiçoamento que nunca estará terminado.

Sendo assim, transportando coletivamente as experiências acumuladas e as memórias dos resultados de maus comportamentos e de boas práticas, temos vindo a construir e a interiorizar a lista de responsabilidades associadas ao nosso estatuto de “ser humano”. Deste modo, no campo das práticas castigadoras, fomos deixando de lado os espetáculos em que nos matávamos uns aos outros em fogueiras ou nos enforcávamos mutuamente em público com os nossos vizinhos, amigos, inimigos, cidadãos, todos a assistirem e a rejubilarem de satisfação. Também parecem ter terminado, as mortes por guilhotina com as cabeças a serem separadas dos corpos por uma lâmina grande e pesada e, também, com a multidão em júbilo.  Mas alguns processos ainda se mantêm. Passaram por reformulações e adaptações nas formas e conteúdos, mas todos eles são suscetíveis de pôr em causa o sentido de humanidade de quem os defende e os pratica. Falo dos condenados à morte por injeção letal e cadeira elétrica, lembro as devastações das sucessivas guerras em que pessoas inocentes matam outras pessoas também inocentes, todos mandados e comandados por pessoas culpadas, aludo às mortes de pessoas que vivendo nos seus territórios desde que aí nasceram foram sendo invadidos, mortos, aprisionados, feitos escravos por outras pessoas a quem as suas terras e os seus bens não satisfaziam, milhares de indivíduos enfiados por outros indivíduos em câmaras de gás, despidos, enganados humilhados e mortos. Ainda há filmes de cowboys suficientes para quem quiser ver ou rever e parar e pensar. Esses filmes retratam uma realidade não muito longe. A prática dos indivíduos europeus que atravessaram o mar e se foram pôr em território já povoado, a matar à farta os outros que já lá estavam – os índios. Pois é. São exemplos. Há muitos mais.

Obviamente, ainda proliferam em vários locais do planeta, práticas ancestrais e atos inaceitáveis de desrespeito e apropriação da vida e da liberdade dos outros. Estamos a obrar no nosso desenvolvimento a várias velocidades. Há países onde os indivíduos humanos são mais instruídos, construíram quadros de direitos comuns que asseguram vidas dignas e praticam o respeito pelo outro e pelas outras espécies. Aboliram as tradições más e as práticas violentas e bárbaras contra os animais humanos e não humanos. Mas há regiões onde crianças, mulheres e homens morrem diariamente, vítimas de fome, impedidos de viver por outros indivíduos incompetentes, prepotentes, desumanos, incitadores dos maus costumes, fiéis a tradições más que ainda não foram erradicadas, como a mutilação genital feminina que se pratica em vários países por esse mundo fora onde existem seres que não ascenderam, ainda, a estádios de desenvolvimento superiores. Quanto à vida e aos direitos dos animais não humanos nestas sociedades, obviamente são muito precários.

Também há países onde já não se mata sem mais nem menos, nem há pena de morte. As prepotências, os racismos e as discriminações entre os indivíduos humanos e de uns contra os outros nesses países não existem declaradamente, são subtis. Alguns animais não humanos estão, relativamente, a salvo gozando de direitos que os protegem da selvajaria dos animais humanos. Não é, infelizmente, o caso dos touros reproduzidos e criados para a prática da tourada.

A tauromaquia é o modo de vida e o emprego de alguns seres. Trata-se de um setor com diversas atividades económicas envolvidas. É muita gente que depende de muita gente. Todos a ganhar dinheiro. Talvez uns mais e outros menos e outros quase nada. E depois há os adeptos, os aficionados. Alguns foram à escola. Outros não. Mas gostam todos de ir à tourada. Vibram com o touro a esvair-se em sangue, levantam-se, gritam e pedem mais.

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Foto: Daniel Ochoa de Olza/AP

É uma questão de gosto, dizem os apreciadores. Portanto, espetar touros com ferros, pegá-los, esfaqueá-los até à morte, assistir em júbilo a estas práticas, são atitudes que fazem parte do leque de interesses de cada um e deve ser respeitado por quem não gosta ou não tem interesse — acham esses aficionados.

Prosseguindo a ordem de ideias dessas pessoas, gostar de touradas é equivalente a gostar de jogar uma sueca com os amigos, ou é como gostar de ler, de escrever, de pintar, de ir ao cinema, ao teatro, apreciar a dança, assistir a um concerto de música pop ou de rock, ir à ópera, ver e ouvir a orquestra metropolitana, marcar presença no desfile das marchas de Lisboa na Avenida da Liberdade, correr na meia maratona? Não pode ser. Não é!

É tradição, dizem muitos outros. É, mas é uma tradição má e precisa de ser eliminada. As sociedades onde ela ainda existe estão atrasadas no seu desenvolvimento. Têm um défice de humanidade.

É cultural, argumentam os que passaram mais tempo na escola. Pode ser. Também o era a prática de queimar gatos vivos na Europa medieval, incluindo em Portugal. Porém deixou de ser. O conceito de cultura tem diversas aceções. Eu prefiro deter-me e reger a minha cartilha pela aceção da civilização, do desenvolvimento, da mudança de comportamento para um nível superior, para a aquisição de competências como o sentimento e a perceção dos direitos do outro, seja animal humano ou não humano.

É por tudo isto que temos nós, membros da espécie (que já devia ser) humana, enormes responsabilidades. Trata-se de agir com decência deixando que os membros das outras espécies possam ter, também, vidas dignas e facultarmos o que for preciso em seu favor.  É este o nosso dever, a moral que devemos esforçar-nos, muito, para adquirir.

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