Do medo do ignoto, da perspicuidade e da razão

Esta madrugada trovejou e agora chove copiosamente em toda a cidade. Os sinos tocam nos templos, nas basílicas, nas abadias. São avisos estridentes, rogos aos membros da fé para que se vão ajoelhar e renovem os pedidos de proteção e mercês. E eles, os devotos, vão entrando sem corridas, mas com pressa de poderem ingressar na via do silêncio e rezarem no claustro das suas beatitudes.  É muito medo de trovoadas e do ignoto; é pânico causado pelos estrépitos que os raios fazem quando trespassam o ar; é o azar, dos que não encontraram quem lhes abrisse os olhos nem à nascença, nem ao longo da vida; é o pavor absoluto da chegada às portas da morte e da queda no desconhecido.

De resto, parece-me que o efeito acústico da atmosfera terrestre a fazer tremer o chão pode ser comparado com o Bolero de Ravel ou com a 5ª Sinfonia de Beethoven e gosto de sentir isso. Não rezo, enfrento curvas perigosas, esmiúço, estudo a formação das nuvens, celebro a trovoada. E acredito que tudo na minha vida depois de morrer será rigorosamente igual ao que era antes nascer.

 

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