Reservadores de lugares

São pessoas que têm pavor de ter que comer de pé nos espaços de restauração dos hipermercados, centros comerciais, restaurantes self-service e, em geral, em comedouros onde não há empregados de mesa. Estes reservadores de lugares atuam sempre em quadrilha e o modus operandi parece ser bastante repetitivo. Se for uma quadrilha de pai, mãe e dois filhos e precisarem de mesa para quatro é comum observar-se o seguinte: a mãe vai estacionar na fila para comprar (ou encomendar) a comida e faz-se acompanhar de um filho. O pai abanca com o outro na tal mesa de quatro lugares. Ocupam o assento de uma das cadeiras com a mala de mão da mãe, o casaco de um deles a aquecer as costas da outra cadeira e, imediatamente, pregam os olhos ao jornal e ao tablete ou ao telemóvel. Assim se deixam ficar até que a família volte com as suas refeições. Nunca olham para a frente, nem para trás, nem para cima, apenas para baixo, evitando, assim, o contato visual com os cidadãos que, não tendo usado o esquema da reserva deambulam, com as bandejas entre as mãos, procurando a mesa e a cadeira a que teriam direito, pois já compraram a comida e estão prontos a comê-la.

Algumas destas quadrilhas de ocupação antecipada de partes comuns são lideradas por cabecilhas com visão e vontade de prepararem as crias para a vida. Muitos deles decidem iniciar as crianças nesta prática desde cedo para que elas cheguem a adultos especializados na arte do desenrasca. E, assim, também é bastante comum depararmo-nos com uma mesa para quatro (e até para seis) em que o marcador é uma criança aparentando uma idade não superior a seis ou sete anos de idade. É frequente darmos com a criança, também, a usar um smartphone ou um tablete interagindo com os ditos compulsivamente, como se estivesse em missão noutro lugar qualquer. Ao seu lado e à sua frente, de novo, as cadeiras todas ocupadas com a tal mala da mãe, os sacos de compras, os casacos.

Sucedem-se os parvos em busca das mesas e das cadeiras almejadas. Tabuleiros ao alto, olhos bem abertos, cabeças em alertas rápidos, todos deslocando-se por entre a turba abancada, ora avançando, ora recuando, ora tropeçando na mobília de fibras e plásticos. De repente avista-se uma quadrilha inteira a destroçar, mesa vazia, vamos, vamos, ali à esquerda depois da coluna, em frente ao quiosque, despachem-se seus moles. Pimba, consigo chegar antes daquela que vinha em sentido contrário e zás, uhm, espera, espera…bolas, a mesa está despejada de criaturas, mas os dois tabuleiros, os pratos, os copos, talheres, restos da comida, fica tudo lá. Avaliação da situação: se eu retirar as alfaias usadas e sujas consigo sentar-me e comer? Ou preciso de um pano para limpar a mesa? Preciso de pano. Há restos de 7 Up, pedaços de esparguete com aparência de ter sido regurgitado, pacotes de papel besuntados de óleo com restos de batatas fritas e outros detritos. Espero até avistar alguém da manutenção. Retiro dois tabuleiros e vou colocá-los à zona de recolha de loiça, a uns metros dali. O trabalhador da manutenção limpa as mesas com um pano. Sento-me. Consigo fazer a minha refeição sem deixar cair restos de comida na mesa. Termino. Levanto-me e vou deixar a bandeja no carro de transporte de tabuleiros mais à frente. Vou à minha vida.

Muitos ocupantes deste planeta ainda trazem entalhados nos cernes os medos das fomes, dos frios, das mortes. Por isso assumem uma atitude bélica apontada a todos os semelhantes que lhes venham pela frente com ar de quererem comer da mesma malga, aquecer as mãos nas mesmas brasas ou acoitarem-se nas suas palhas de primeira apanha. Por isso, as viagens em primeiras classes que permitem usufruir dos melhores assentos, das melhores comidas, das bebidas caras, de mais espaço para poderem esticar tíbias reais. Por isso, a reserva da melhor mesa, no melhor lugar do melhor restaurante. Por isso, a cirurgia, a consulta, o tratamento, no hospital privado com fama de ser caro e melhor do que o hospital público: para usufruir dos médicos mais qualificados e experientes, da cama mais ergonómica, do quarto só para si, da privacidade, das instalações sanitárias mais novas, mais limpas, mais assépticas, dos melhores cuidados praticados com mais cuidado, da boa vista sobre a savana e de um recobro com verdadeira qualidade. Por isso, as crias nas escolas melhores, nos colégios privados, estrangeiros, especializados onde, dizem, o ensino é melhor e a disciplina maior. Por isso, os quilómetros e quilómetros de cercas de arame (algum dele farpado), a garantir o usufruto desses enormíssimos pedaços de savana apenas a alguns seres portadores de trevos de quatro folhas. Por isso, o lugar à porta para estacionar o automóvel, a garagem, a box. Por isso o terraço, o condomínio, a piscina privada. Por isso, os egos grandes, os umbigos inchados, os abusos de direitos. Por isso, o pacote de sumo vazio com a palhinha usada em cima do banco do jardim que é de todos os cidadãos que lá devem poder sentar-se. Por isso, por isso, as guerras, as fomes, as mortes. Uma grande parte de exemplares destes espécimenes parece não querer saber do outro para nada. A não ser que seja uma cria, um membro da tribo, um semelhante chegado. Por isso, os reservadores de lugares precisam de rever a prática. Talvez se venham a surpreender quando perceberem que, mesmo sem reserva, poderão sentar-se todos. Mas se não puderem sentar-se logo, pois que esperem, também, a sua vez.

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Instinto de sobrevivência

Quando hoje, pela calada da tarde, desci uma rua aqui ao pé, parei a notar uma árvore de média dimensão que ali vive plantada a rasar o passeio e albergava, naquele instante, dois melros suspensos em ramo comum. Um deles esticou a cabeça para a frente e piou algo em idioma de mérula. É possível que tenha enviado um alerta aos restantes membros do bando:

— Sriiiiii, espécie belicosa parada junto ao galho GGA50XB2629.

Descolaram ambos, num movimento de sincronia perfeita e dissiparam-se na espessura das folhas de uns aloendros que existem dispostos no outro lado do espaço verde.

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Não é uma questão de gosto, é uma questão de desenvolvimento

Uma tourada é um espetáculo de divertimento antigo (remonta ao século XII) em que certas pessoas (os toureiros) montando cavalos e deslocando-se a pé, espetam ferros no dorso dos touros, os pegam pelos chifres e pelo rabo e os matam. Isto tudo demoradamente e com detalhes requintados de crueldade. Ainda, durante estes atos, aos quais se dá o nome de “lide” e “pega” e aos quais assistem pessoas em regozijo e delírio (os aficionados) é desferida violência e morte contra seres sencientes (que sentem, tendo um sistema nervoso complexo), indefesos e inocentes. As touradas são inequívocos atos de barbaridade totalmente injustificada nos padrões humanistas atuais.

Desde tempos muito antigos que temos vindo, nós, indivíduos da espécie humana, a habitar este planeta praticando atos inerentes à nossa necessidade de sobrevivência.  Através deles temos vindo a desenvolver-nos, aprimorando-nos, transformando-nos enquanto seres pensantes, racionais, trabalhando incessantemente, geração após geração, em estratégias diferentes, experiências novas, buscando alcançar e aumentar as vias infinitas repletas de possibilidades que garantam a continuação desse aperfeiçoamento que nunca estará terminado.

Sendo assim, transportando coletivamente as experiências acumuladas e as memórias dos resultados de maus comportamentos e de boas práticas, temos vindo a construir e a interiorizar a lista de responsabilidades associadas ao nosso estatuto de “ser humano”. Deste modo, no campo das práticas castigadoras, fomos deixando de lado os espetáculos em que nos matávamos uns aos outros em fogueiras ou nos enforcávamos mutuamente em público com os nossos vizinhos, amigos, inimigos, cidadãos, todos a assistirem e a rejubilarem de satisfação. Também parecem ter terminado, as mortes por guilhotina com as cabeças a serem separadas dos corpos por uma lâmina grande e pesada e, também, com a multidão em júbilo.  Mas alguns processos ainda se mantêm. Passaram por reformulações e adaptações nas formas e conteúdos, mas todos eles são suscetíveis de pôr em causa o sentido de humanidade de quem os defende e os pratica. Falo dos condenados à morte por injeção letal e cadeira elétrica, lembro as devastações das sucessivas guerras em que pessoas inocentes matam outras pessoas também inocentes, todos mandados e comandados por pessoas culpadas, aludo às mortes de pessoas que vivendo nos seus territórios desde que aí nasceram foram sendo invadidos, mortos, aprisionados, feitos escravos por outras pessoas a quem as suas terras e os seus bens não satisfaziam, milhares de indivíduos enfiados por outros indivíduos em câmaras de gás, despidos, enganados humilhados e mortos. Ainda há filmes de cowboys suficientes para quem quiser ver ou rever e parar e pensar. Esses filmes retratam uma realidade não muito longe. A prática dos indivíduos europeus que atravessaram o mar e se foram pôr em território já povoado, a matar à farta os outros que já lá estavam – os índios. Pois é. São exemplos. Há muitos mais.

Obviamente, ainda proliferam em vários locais do planeta, práticas ancestrais e atos inaceitáveis de desrespeito e apropriação da vida e da liberdade dos outros. Estamos a obrar no nosso desenvolvimento a várias velocidades. Há países onde os indivíduos humanos são mais instruídos, construíram quadros de direitos comuns que asseguram vidas dignas e praticam o respeito pelo outro e pelas outras espécies. Aboliram as tradições más e as práticas violentas e bárbaras contra os animais humanos e não humanos. Mas há regiões onde crianças, mulheres e homens morrem diariamente, vítimas de fome, impedidos de viver por outros indivíduos incompetentes, prepotentes, desumanos, incitadores dos maus costumes, fiéis a tradições más que ainda não foram erradicadas, como a mutilação genital feminina que se pratica em vários países por esse mundo fora onde existem seres que não ascenderam, ainda, a estádios de desenvolvimento superiores. Quanto à vida e aos direitos dos animais não humanos nestas sociedades, obviamente são muito precários.

Também há países onde já não se mata sem mais nem menos, nem há pena de morte. As prepotências, os racismos e as discriminações entre os indivíduos humanos e de uns contra os outros nesses países não existem declaradamente, são subtis. Alguns animais não humanos estão, relativamente, a salvo gozando de direitos que os protegem da selvajaria dos animais humanos. Não é, infelizmente, o caso dos touros reproduzidos e criados para a prática da tourada.

A tauromaquia é o modo de vida e o emprego de alguns seres. Trata-se de um setor com diversas atividades económicas envolvidas. É muita gente que depende de muita gente. Todos a ganhar dinheiro. Talvez uns mais e outros menos e outros quase nada. E depois há os adeptos, os aficionados. Alguns foram à escola. Outros não. Mas gostam todos de ir à tourada. Vibram com o touro a esvair-se em sangue, levantam-se, gritam e pedem mais.

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Foto: Daniel Ochoa de Olza/AP

É uma questão de gosto, dizem os apreciadores. Portanto, espetar touros com ferros, pegá-los, esfaqueá-los até à morte, assistir em júbilo a estas práticas, são atitudes que fazem parte do leque de interesses de cada um e deve ser respeitado por quem não gosta ou não tem interesse — acham esses aficionados.

Prosseguindo a ordem de ideias dessas pessoas, gostar de touradas é equivalente a gostar de jogar uma sueca com os amigos, ou é como gostar de ler, de escrever, de pintar, de ir ao cinema, ao teatro, apreciar a dança, assistir a um concerto de música pop ou de rock, ir à ópera, ver e ouvir a orquestra metropolitana, marcar presença no desfile das marchas de Lisboa na Avenida da Liberdade, correr na meia maratona? Não pode ser. Não é!

É tradição, dizem muitos outros. É, mas é uma tradição má e precisa de ser eliminada. As sociedades onde ela ainda existe estão atrasadas no seu desenvolvimento. Têm um défice de humanidade.

É cultural, argumentam os que passaram mais tempo na escola. Pode ser. Também o era a prática de queimar gatos vivos na Europa medieval, incluindo em Portugal. Porém deixou de ser. O conceito de cultura tem diversas aceções. Eu prefiro deter-me e reger a minha cartilha pela aceção da civilização, do desenvolvimento, da mudança de comportamento para um nível superior, para a aquisição de competências como o sentimento e a perceção dos direitos do outro, seja animal humano ou não humano.

É por tudo isto que temos nós, membros da espécie (que já devia ser) humana, enormes responsabilidades. Trata-se de agir com decência deixando que os membros das outras espécies possam ter, também, vidas dignas e facultarmos o que for preciso em seu favor.  É este o nosso dever, a moral que devemos esforçar-nos, muito, para adquirir.

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A paixão da leitura: Vida Dupla de Sérgio Godinho

Esta obra de Sérgio Godinho ficará a ser, para mim, uma espécie de expressão da turba que habita em cada um de nós. E trata-se de uma multidão que nos dá muito trabalho.

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Na sua individualidade estas personagens têm vivências, ensaios e tentativas para vidas felizes que, às vezes, não dão em nada. São esforços de percursos pelas vias do bem que acabam mal. Nas suas ambições, estas pessoas buscam um concreto que não seja efémero, que seja mágico e orgástico, mas estável. São as nossas múltiplas faces e algumas podem atirar connosco para dentro de uma espécie de poço da morte, onde ficamos a rodopiar, o ânimo em rotação, a afastarmo-nos gradualmente do centro à cata do equilíbrio que é a pedra preciosa do cerne humano.

Estas vozes que ouvimos e acarinhamos em Vida Dupla são fundas, contusas, poéticas, finamente irónicas, travessas, vívidas, eróticas e muito mais. O texto é um paraíso da semântica, um regalo para quem gosta de ambiguidades e polissemias.

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A morte do medo

Snif. Abalei em passos compridos depois de anavalhar um temor que ali estava escondido entre duas sombras de uns olhos que queriam ser flamejantes; mais à frente, já fora de perigo, abrandei a marcha. Comecei, então, a vir a mim, vagarosamente, abrigada no sobretudo de papel canelado e botões sem casas; empinei a gola pescoço acima até à ponta dos cabelos; transportei-me ao ar puro e vim contando cúpulas enquanto revirava a mala buscando as chaves para poder entrar na mansarda. Dei a volta ao canhão no sentido contrário aos ponteiros do relógio. Correu bem. Galgado o degrau do medo, saí do anonimato. Esvaziei os sacos das últimas incertezas e pus um copo cheio de resistências dentro do frigorífico para não se estragar ao calor da noite. Despi-me das forças débeis; fechei a boca sequiosa de línguas vivas e enchi as mãos de palavras para escrever. Veem-me as forças novas, as esperanças absolutas e encho de alegria estas águas furtadas ao isolamento. Acendo a vela ao fim do dia sem honrar o receio arriado há cerca de meia hora. Arf!

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Ansiopólis

A cidade anda raivosa, fétida, alterada. Parece doente. Logo à saída da madrugada, numa curva qualquer, num peitoril a cair de podre, assim que a luz põe os olhos a ver, já os habitantes em trânsito vão com os pulmões a arder em canos de escape, com os tímpanos a estalar aos roncos dos motores das aeronaves a sair pelo rio e a entrar pela ponte. Tudo vibra à rosca dos martelos pneumáticos onde nascem casas novas e se arruínam as antigas. Os sobreviventes de Ansiopólis, andam sem saber como lidar nela. Não é possível virar uma esquina sem colidir na loucura que está doida de todo. Deve ser por causa dos processos eleitorais e dos candidatos danosos ou das greves e das desconvocações, ou dos tornados e torvelinhos, ou dos sisos que ficam alterados ao cair da folha. E, assim, nem pensar em deslocar o vento pelas ruas em corpinho bem feito e chegar-se ao destino sem que um pombo mal da barriga não tenha evacuado em cima de uma cabeleira acabada de lavar. Também é por isto tudo que não se pode olhar para o céu sem deixar a cabeça nas nuvens, nem atravessar uma via qualquer devagar sob pena de ser preciso trocar uns sopapos com algum condutor em apressuramento. E os espectadores? Aqueles que veem tudo, mesmo tudo, porque se empurram para a frente, porque vão dando cotoveladas nos outros observadores que já estão aglomerados à sua frente e conseguem, em segundos, enfiar-se entre braços e pernas e postarem-se nas arenas das zaragatas. E ali ficam a degustar a luta, ávidos, com os olhos palpitantes e as pálpebras abrindo e fechando para verem melhor e não perderem nem uma fatia daquela marmelada. Logo que lhes soe a testemunha escapam-se num ápice, do mesmo modo e pelas mesmas vias com que foram ali parar.

Ansiopólis pode estar muito doente, sim, pois é preciso fugir do cheiro dos camiões basculantes que andam a recolher sopas azedas, leite estragado, restos de frango, cascas de fruta, carne dura, ovos podres, areia de gato urinada, pensos higiénicos engulhosos, cotonetes com cera seca, fraldas com restos intestinais, restos de frango, cabelos caídos e muitas outras imundícies. Ainda agora vinham ansiopólistanos em processo de evasão conjunta. Tentei perceber se iam a sair da cidade, porque levavam grande quantidade de atavios, mas não consegui, porque todos falavam entre si e aos telemóveis e rugiam e espumavam e uns levavam os cães atados com cordas e cestos com gatos que miavam e se enchiam de stresse animal. Outros carregavam nas costas écrans planos de televisão e também havia muitas crianças, de várias idades, que iam sendo estimuladas aos berros para andarem mais depressa. Alguns velhos que iam pela mão dos técnicos dos lares ou agarrados a familiares tropeçavam e caiam porque não estavam a conseguir andar depressa. Mas não vi mais confusão, pelo menos nesta parte da cidade. Não há notícias sobre isto em lado nenhum do mundo, só vejo ouço ou leio acerca dos detalhes escabrosos da política americana, das manobras dos outros políticos dos quatro cantos do globo com relevância para os candidatos à presidência do Brasil e aos eleitores pobres, analfabetos, desinformados que já votaram e ainda vão votar mais em pessoas fanáticas e perigosas, doentes, portanto. E consigo apanhar umas frases sobre pessoas que são figuras públicas com muito dinheiro, seja lá o que isso for, e que estão acusadas de violarem outras que não são figuras públicas e não tem muito dinheiro e que, por isso, não podem dizer que não a nada. Então, mas há mais notas e apontamentos escritas em cores variadas e tipos de letras diferentes, com caixas altas e sem elas, em plataformas variadas, até sobre refugiados e ações e campanhas das lutas diárias no campo dos direitos humanos mais as campanhas de baixa de preços do Lidl e os descontos do Pingo Doce e os serviços de mensagens curtas da Almedina e da Bertrand às sextas feiras com livros mais baratos e descontos em cartão, enfim. Mas não apanho nada sobre aquela gente que ia no corre-corre como se algo bastante grave estivesse para acontecer e houvesse uma terra nova à espera deles à saída de Ansiópolis a qual, ainda está com os telhados em pé e apresenta, ao fechar deste texto, sintomas de crispações e espasmos muito graves.

 

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Evolução

Eu não canto, mas tu cantas, ele canta, vós cantais, eles cantam. Tudo serve de ponto de partida para melodiar: do céu à terra, do sol à chuva, à noite estrelada, ao amor, enfim, à vida. Nestes temas superiores cabem sempre outros assuntos, tantos, tantos que, se os quiséssemos escrever, dariam para produzir listas quilométricas. E todos eles têm sido, ao longo do tempo, inspirações dos talentosos poetas e cantores.

As cantigas são composições que versam sobre as nossas vidas e sobre a natureza que nos rodeia e da qual somos parte integrante. Incorporam, por isso, sentimentos, sensibilidades, maneiras de viver, ideias gerais, hábitos, normas, ditames e outros valores como as teorias e práticas erguidas ao longo de muitas épocas, heranças de contextos ou conjunturas.

Eu vivo no embalo das melodias que a vida tem e gosto muito de música e de canções. Sou de me pôr a perscrutar o silêncio delas, a pensar nas letras, a ponderar sobre os compassos, as simetrias, as notações e outras exultações que aspergem uma certa composição.

Há tempos comecei a pensar que, tal como certas peças de tecnologia ou algumas práticas de vida vão ficando obsoletas, também existem canções que começam a ficar desatualizadas, digamos assim. Eu, pelo menos, começo a cansar-me de algumas obras, nacionais e estrangeiras que, apesar de ricas nas suas composições musicais, entoam frases, transportam ideias e são promovidas através de telediscos que encorajam o consumo excessivo de alimentos que não nos fazem falta nenhuma, de bebidas alcoólicas em doses não recomendadas para a saúde dos seres humanos, o uso de cigarros ou, ainda, a alusão ao consumo de iguarias produzidas a partir de matérias-primas arrancadas às peles e às entranhas dos animais.

No entanto, também parece haver sinais de que estamos todos a pensar melhor e, se estamos diferentes neste sentido, também o ato criativo está a medrar e vamos tendo os repertórios mais ricos. No fundo, queremos mantermo-nos vivos e saudáveis por muito tempo. Sabemos agora decidir melhor, perceber bem no que devemos acreditar e o que devemos excluir do nosso portfólio de valores e de práticas. Estamos, portanto, a usar a nossa capacidade de sermos racionais e ponderados e, com isso, obtendo cada vez melhores produtos na linha de saída das atividades que desenvolvemos ao longo das horas e dos dias. 

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