Ansiopólis

A cidade anda raivosa, fétida, alterada. Parece doente. Logo à saída da madrugada, numa curva qualquer, num peitoril a cair de podre, assim que a luz põe os olhos a ver, já os habitantes em trânsito vão com os pulmões a arder em canos de escape, com os tímpanos a estalar aos roncos dos motores das aeronaves a sair pelo rio e a entrar pela ponte. Tudo vibra à rosca dos martelos pneumáticos onde nascem casas novas e se arruínam as antigas. Os sobreviventes de Ansiopólis, andam sem saber como lidar nela. Não é possível virar uma esquina sem colidir na loucura que está doida de todo. Deve ser por causa dos processos eleitorais e dos candidatos danosos ou das greves e das desconvocações, ou dos tornados e torvelinhos, ou dos sisos que ficam alterados ao cair da folha. E, assim, nem pensar em deslocar o vento pelas ruas em corpinho bem feito e chegar-se ao destino sem que um pombo mal da barriga não tenha evacuado em cima de uma cabeleira acabada de lavar. Também é por isto tudo que não se pode olhar para o céu sem deixar a cabeça nas nuvens, nem atravessar uma via qualquer devagar sob pena de ser preciso trocar uns sopapos com algum condutor em apressuramento. E os espectadores? Aqueles que veem tudo, mesmo tudo, porque se empurram para a frente, porque vão dando cotoveladas nos outros observadores que já estão aglomerados à sua frente e conseguem, em segundos, enfiar-se entre braços e pernas e postarem-se nas arenas das zaragatas. E ali ficam a degustar a luta, ávidos, com os olhos palpitantes e as pálpebras abrindo e fechando para verem melhor e não perderem nem uma fatia daquela marmelada. Logo que lhes soe a testemunha escapam-se num ápice, do mesmo modo e pelas mesmas vias com que foram ali parar.

Ansiopólis pode estar muito doente, sim, pois é preciso fugir do cheiro dos camiões basculantes que andam a recolher sopas azedas, leite estragado, restos de frango, cascas de fruta, carne dura, ovos podres, areia de gato urinada, pensos higiénicos engulhosos, cotonetes com cera seca, fraldas com restos intestinais, restos de frango, cabelos caídos e muitas outras imundícies. Ainda agora vinham ansiopólistanos em processo de evasão conjunta. Tentei perceber se iam a sair da cidade, porque levavam grande quantidade de atavios, mas não consegui, porque todos falavam entre si e aos telemóveis e rugiam e espumavam e uns levavam os cães atados com cordas e cestos com gatos que miavam e se enchiam de stresse animal. Outros carregavam nas costas écrans planos de televisão e também havia muitas crianças, de várias idades, que iam sendo estimuladas aos berros para andarem mais depressa. Alguns velhos que iam pela mão dos técnicos dos lares ou agarrados a familiares tropeçavam e caiam porque não estavam a conseguir andar depressa. Mas não vi mais confusão, pelo menos nesta parte da cidade. Não há notícias sobre isto em lado nenhum do mundo, só vejo ouço ou leio acerca dos detalhes escabrosos da política americana, das manobras dos outros políticos dos quatro cantos do globo com relevância para os candidatos à presidência do Brasil e aos eleitores pobres, analfabetos, desinformados que já votaram e ainda vão votar mais em pessoas fanáticas e perigosas, doentes, portanto. E consigo apanhar umas frases sobre pessoas que são figuras públicas com muito dinheiro, seja lá o que isso for, e que estão acusadas de violarem outras que não são figuras públicas e não tem muito dinheiro e que, por isso, não podem dizer que não a nada. Então, mas há mais notas e apontamentos escritas em cores variadas e tipos de letras diferentes, com caixas altas e sem elas, em plataformas variadas, até sobre refugiados e ações e campanhas das lutas diárias no campo dos direitos humanos mais as campanhas de baixa de preços do Lidl e os descontos do Pingo Doce e os serviços de mensagens curtas da Almedina e da Bertrand às sextas feiras com livros mais baratos e descontos em cartão, enfim. Mas não apanho nada sobre aquela gente que ia no corre-corre como se algo bastante grave estivesse para acontecer e houvesse uma terra nova à espera deles à saída de Ansiópolis a qual, ainda está com os telhados em pé e apresenta, ao fechar deste texto, sintomas de crispações e espasmos muito graves.

 

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