Evolução

Eu não canto, mas tu cantas, ele canta, vós cantais, eles cantam. Tudo serve de ponto de partida para melodiar: do céu à terra, do sol à chuva, à noite estrelada, ao amor, enfim, à vida. Nestes temas superiores cabem sempre outros assuntos, tantos, tantos que, se os quiséssemos escrever, dariam para produzir listas quilométricas. E todos eles têm sido, ao longo do tempo, inspirações dos talentosos poetas e cantores.

As cantigas são composições que versam sobre as nossas vidas e sobre a natureza que nos rodeia e da qual somos parte integrante. Incorporam, por isso, sentimentos, sensibilidades, maneiras de viver, ideias gerais, hábitos, normas, ditames e outros valores como as teorias e práticas erguidas ao longo de muitas épocas, heranças de contextos ou conjunturas.

Eu vivo no embalo das melodias que a vida tem e gosto muito de música e de canções. Sou de me pôr a perscrutar o silêncio delas, a pensar nas letras, a ponderar sobre os compassos, as simetrias, as notações e outras exultações que aspergem uma certa composição.

Há tempos comecei a pensar que, tal como certas peças de tecnologia ou algumas práticas de vida vão ficando obsoletas, também existem canções que começam a ficar desatualizadas, digamos assim. Eu, pelo menos, começo a cansar-me de algumas obras, nacionais e estrangeiras que, apesar de ricas nas suas composições musicais, entoam frases, transportam ideias e são promovidas através de telediscos que encorajam o consumo excessivo de alimentos que não nos fazem falta nenhuma, de bebidas alcoólicas em doses não recomendadas para a saúde dos seres humanos, o uso de cigarros ou, ainda, a alusão ao consumo de iguarias produzidas a partir de matérias-primas arrancadas às peles e às entranhas dos animais.

No entanto, também parece haver sinais de que estamos todos a pensar melhor e, se estamos diferentes neste sentido, também o ato criativo está a medrar e vamos tendo os repertórios mais ricos. No fundo, queremos mantermo-nos vivos e saudáveis por muito tempo. Sabemos agora decidir melhor, perceber bem no que devemos acreditar e o que devemos excluir do nosso portfólio de valores e de práticas. Estamos, portanto, a usar a nossa capacidade de sermos racionais e ponderados e, com isso, obtendo cada vez melhores produtos na linha de saída das atividades que desenvolvemos ao longo das horas e dos dias. 

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